SÉCULO 21 SERÁ DE “PENÚRIA ALIMENTAR”
Fonte: Marcelo Ninio
Caderno Dinheiro da “Folha de São Paulo” de 27 de abril de 2008
O economista Bruno Parmentier, diretor da Escola Superior de Agricultura de Angers, a mais importante do setor na França, diz que é preciso uma revolução para reverter crise mundial que eleva preço dos produtos.
Autor do livro “Nourrir l´humanité” que faz barulho na Europa por dizer que o século 21 será uma era de penúria alimentar, diz que vai ser necessária uma revolução para reverter a atual crise mundial: na agricultura, no comércio, nos hábitos. Parmentier critica as organizações internacionais que passaram anos desestimulando a produção agrícola e os biocombustíveis, mas isenta o álcool do Brasil.
Em entrevista à Folha, defendeu os subsídios aos produtores, disse que foi um "erro histórico" confiar a negociação agrícola à OMC (Organização Mundial do Comércio) e questionou a "contradição" do Brasil, que se torna um grande exportador de alimentos, mas não consegue erradicar a fome.
Motivos da penúria alimentar
Em meu livro, Bruno Parmentier, explica que o século 21 será de penúria alimentar. Por vários motivos.
Fonte: Marcelo Ninio
Caderno Dinheiro da “Folha de São Paulo” de 27 de abril de 2008
O economista Bruno Parmentier, diretor da Escola Superior de Agricultura de Angers, a mais importante do setor na França, diz que é preciso uma revolução para reverter crise mundial que eleva preço dos produtos.
Autor do livro “Nourrir l´humanité” que faz barulho na Europa por dizer que o século 21 será uma era de penúria alimentar, diz que vai ser necessária uma revolução para reverter a atual crise mundial: na agricultura, no comércio, nos hábitos. Parmentier critica as organizações internacionais que passaram anos desestimulando a produção agrícola e os biocombustíveis, mas isenta o álcool do Brasil.
Em entrevista à Folha, defendeu os subsídios aos produtores, disse que foi um "erro histórico" confiar a negociação agrícola à OMC (Organização Mundial do Comércio) e questionou a "contradição" do Brasil, que se torna um grande exportador de alimentos, mas não consegue erradicar a fome.
Motivos da penúria alimentar
Em meu livro, Bruno Parmentier, explica que o século 21 será de penúria alimentar. Por vários motivos.
O esgotamento dos recursos naturais faz com que a revolução agrícola dos anos 1960, que usa muita terra, água e energia, não possa ser levada adiante num período de escassez.
A química já deu à agricultura tudo o que podia no século 20, com os fertilizantes, os fungicidas, os inseticidas e os herbicidas. Hoje ela custa muito caro em termos de energia e acabou poluindo o solo e as águas. Em matéria agrícola, o século da química está chegando ao fim e é preciso deslanchar o da biologia.
Só em 2007 o aquecimento global e suas conseqüências para a agricultura passaram ao primeiro plano das preocupações globais. Será que a Austrália está vivendo uma sucessão de azares com suas estiagens repetidas, ou terá o fenômeno se tornado definitivo?
A elevação acelerada do nível de vida em países asiáticos industrializados provocou um enriquecimento dos hábitos alimentares, com a passagem para uma alimentação à base de produtos animais - carne na China e derivados do leite na Índia. A pressão que essas populações exercem sobre os recursos do planeta se acentua rapidamente.
O problema energético mundial já passou para o primeiro plano de maneira duradoura. Ele afeta a agricultura duplamente: por um lado porque a revolução tecnológica precedente era altamente consumidora de energia. Em segundo, porque se passou a exigir da agricultura que ela preencha os pratos e os tanques dos automóveis. É importante acabar imediatamente com esse erro histórico: não temos cereais e oleaginosas suficientes e queimá-los torna-se um crime.
Destruímos sistematicamente todos os programas de apoio à agricultura produtora de alimentos em todo o mundo. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional chegaram a impor esse desengajamento como condição para a concessão de sua ajuda aos países endividados, incentivando-os apenas a produzir culturas industriais que lhes permitiriam obter nos mercados internacionais divisas para saldarem suas dívidas.
Impacto dos biocombustíveis.
Sobre o impacto dos biocombustíveis nos preços dos alimentos Parmentier diz: até hoje o único impacto real e comprovado é o dos biocombustíveis norte-americanos à base de milho, que desde o início de 2007 provocaram um verdadeiro choque no México, quando o preço da tortilha teve um aumento de 50%. Mas, se continuarmos com essa política insensata de queimar cereais ou oleaginosos em nossos motores, esse erro inicial dos agrocombustíveis de primeira geração vai de fato converter-se em crime.
Em relação ao álcool produzido no Brasil existe uma diferença essencial: os brasileiros já estão de certo modo nos biocombustíveis de segunda geração, ou seja, feitos a partir da planta inteira, a biomassa - não a partir do grão. Parece que vocês estão indicando o caminho a seguir, e, é claro, sua produtividade é bem melhor que a nossa. Em contrapartida, observo que o Brasil, grande país agrícola, fortemente exportador, não consegue alimentar corretamente sua própria população.
O Brasil terá que resolver essa contradição: alimenta países muito distantes, enche muitos tanques de combustível, mas ainda há milhões de brasileiros que têm fome.
Assembléia de comerciantes
O fato de a responsabilidade pela agricultura e a alimentação mundial ter sido tirada da FAO (Organização da ONU para Alimentação e Agricultura) para ser confiada a uma assembléia de comerciantes, a OMC, é um erro histórico. Esta crise nos permite ver muito bem que os comerciantes são totalmente incapazes de resolver o problema da fome no mundo. Acreditar que comerciantes vão levar aos povoados no fim do mundo produtos agrícolas que pesam muito, que apodrecem facilmente, para dá-los a pessoas que não têm dinheiro, é uma fraude intelectual.
Não se pode alimentar a humanidade com os excedentes de produção de alguns países. Se o Brasil pode alimentar 50, 100 ou 150 milhões de pessoas além de sua própria população, tanto melhor - é um serviço verdadeiro que prestará à humanidade, e será bom para ele, que, de passagem, se enriquecerá. Mas estamos falando hoje em 850 milhões de pessoas que passam fome, e muito provavelmente de outros 50, 100 ou 150 milhões a mais até o final de 2008, sendo que a população mundial aumenta em 80 milhões de pessoas a cada ano.
Não compreendo como pessoas que raciocinam possam imaginar que esse comércio vá evitar as revoltas provocadas pela fome. Vejam o primeiro reflexo da ação dos grandes países exportadores de arroz que fecharam suas fronteiras e proibiram as exportações, para garantir a alimentação de suas próprias populações. No século 21, depender de outros países para se alimentar é fazer uma aposta num futuro extremamente perigoso.
É preciso reavaliar por completo a organização da agricultura mundial. Não há nada mais urgente que fechar as fronteiras, e organizar, nos países que têm fome, a mesma política que deu certo nos grandes países povoados que conseguiram se alimentar, como Estados Unidos, Europa e China: fechar as fronteiras para proteger sua agricultura e dar apoio maciço a seu desenvolvimento. Mas isso não deve preocupar o Brasil: ele ainda terá por muito tempo compradores para seus produtos, pois vamos viver um período prolongado de penúria.
A questão dos subsídios
Não creio que as subvenções agrícolas realmente causem a insegurança alimentar. O problema é que apenas os países ricos têm condições de pagar uma verdadeira segurança alimentar. Mas pensar que os países mais pobres conseguirão exportar sua produção agrícola à Europa e aos Estados Unidos se todas as fronteiras forem abertas me parece um engodo intelectual: eles não têm excedentes, e, quando produzem, sua produtividade é muito menor. A solução é exatamente o inverso: é preciso generalizar a proteção da agricultura produtora de alimentos e a subvenção a essa agricultura.
Mudança nos hábitos alimentares
É urgente acelerar o processo de transição alimentar. Dos 6,7 bilhões de habitantes do planeta, 887 milhões são subnutridos e 1,1 bilhão têm excesso de peso. Isso faz sentido? É preciso que os ricos comam menos carne e açúcar, mas também que centenas de milhões de pobres possam comer carne e açúcar de vez em quando.
Mas, além dessa mudança de hábitos alimentares, é preciso parar de desperdiçar. Como é possível que cause alegria em seu país, por exemplo, a abertura de restaurantes em que se paga um preço fixo ao entrar e a comida é ilimitada? Isso é provavelmente algo que tem suas raízes na cultura brasileira, mas que não corresponde de modo algum às exigências e aos desafios do século 21.
PRODUÇÃO ATUAL DE ALIMENTOS DÁ E SOBRA PARA A HUMANIDADE INTEIRA
Fonte: Reinaldo José Lopes – Do G1
Simples mudança na eficiência agropecuária poderia aumentar produtividade várias vezes. Área utilizada para plantio e criação não cresceu nas últimas décadas, revelam dados.
O que eu posso garantir é que, com a área agrícola disponível hoje no planeta, sem abrir nenhum hectare novo de lavoura ou pasto, dá e sobra para alimentar a população mundial. E digo que ainda sobra um bocado de área para produzir biocombustíveis", resume Luis Fernando Laranja da Fonseca, coordenador do Programa de Agricultura e Meio Ambiente da ONG WWF - Brasil.
"Conforme a população mundial foi crescendo, até chegar a cerca de 3 bilhões [nos anos 1960], a área agrícola do mundo aumentou na mesma proporção", conta o britânico Stuart Pimm, biólogo da Universidade Duke, nos Estados Unidos. "No entanto, quando a população dobrou e chegou a 6 bilhões, a área usada para agricultura e pecuária ficou mais ou menos inalterada, no nível que tinha alcançado quando havia 3 bilhões de pessoas no mundo, ou seja, cerca de 15 milhões de quilômetros quadrados."
Para ser mais exato, diz Fonseca, em 1965 a relação entre terra produzindo comida e seres humanos consumindo essa comida era de 1,3 hectare agrícola por pessoa, enquanto hoje essa relação caiu para 0,7 hectare. Além disso, o consumo de calorias por cabeça também cresceu - de menos de 2.400 kcal por dia para quase 3.000 kcal diárias no mesmo período. O aumento da eficiência agropecuária, portanto, é indiscutível.
BRASIL PODE DUPLICAR ÁREA DE PLANTIO
Fonte: Márcia De Chiara
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008
Roberto Rodrigues ex-ministro da Agricultura afirma que o Brasil é hoje o único país que tem potencial para resolver no curto prazo a crise mundial de alimentos. O País pode incorporar aos 47 milhões de hectares usados para produzir comida 50 milhões de hectares de pastagens subaproveitadas e com aptidão para agricultura de grãos.
Com isso, é possível dobrar a área com grãos e ampliar em duas vezes e meia o volume da safra de alimentos, atingindo 350 milhões de toneladas de grãos, sem derrubar uma única árvore. Nessa conta, ele considera o crescimento da safra não apenas pela expansão da área, mas também pelo aumento da produtividade, que, na média das lavouras brasileiras, é baixa.
Além dos grãos, o ex-ministro, observa que o País pode multiplicar por sete a área plantada com cana-de-açúcar para produção de etanol sem afetar a produção de comida. Nas suas contas, há 22 milhões de hectares ocupados com pastagens degradadas que são boas para cana-de-açúcar e podem ser aproveitadas.
O superintendente técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Ricardo Cotta, faz um alerta semelhante ao do ex-ministro. “O único país que tem condições de encarar a crise de alimentos como uma grande oportunidade é o Brasil”.
Há, entretanto, gargalos segundo diz Ricardo Cotta. O primeiro é a falta de infra-estrutura. Hoje é impossível aumentar em 10 milhões de toneladas a produção sem enfrentar problemas nos portos, rodovias e ferrovias, quanto mais em triplicar a safra. O governo deve atrair o capital privado para obras de infra-estrutura com regras claras.
O segundo ponto que segura o avanço da safra de grãos é a falta de financiamento ao produtor.
Outra barreira significativa e o custo de fertilizantes e de defensivos. Três empresas dominam o mercado de adubos. Coma alta do preço do petróleo e da concentração do setor, os fertilizantes subiram em um ano entre 80% e 90%.
CRISE AGRÍCOLA GERA OPORTUNIDADE AO PAÍS
Fonte: Mauro Zafalon
Caderno Dinheiro da “Folha de São Paulo”, de 27 de abril de 2008
Demanda por alimentos de um lado e biocombustíveis de outro levaram, aos poucos, os estoques mundiais para níveis perigosos neste momento.
Os EUA, por exemplo, líderes mundiais em produção de milho, mas que adotaram o produto como energia alternativa, chegam ao final do ano-safra 2008/9 com estoques suficientes para apenas mais 14 dias. O de soja será de apenas 34 dias.
Oferta aquecida, demanda apertada e estoques baixos foram o estopim para uma aceleração nos preços, incrementada ainda mais pelos fundos de investimentos, que também escolheram as commodities agrícolas para investir.
Com esse cenário, a menos que haja uma redução muito forte no ritmo da economia mundial, a demanda por alimentos vai continuar forte e, nos patamares atuais de produção, a reposição dos estoques demora alguns anos.
Países como Japão e China, grandes importadores de alimentos e com muito dinheiro em caixa, provavelmente vão pensar em abastecimento de produtos básicos com uma visão de mais longo prazo.
Alto custo
Aí entram as oportunidades do Brasil. O país elevou em muito a produtividade nos últimos anos, mas ainda patina no processo de produção devido a elevados custos e baixo poder financeiro dos produtores.
Governo, cooperativas e câmaras de comércio deveriam buscar acordos internacionais de longo prazo com esses países carentes em alimentos e torná-los responsáveis pela comida que consomem, do plantio à produção final.
O Japão, por exemplo, um dos grandes importadores mundiais de alimentos, empresta dinheiro a um juro próximo de 0,5% ao ano no mercado financeiro mundial. Com uma taxa semelhante, os agricultores brasileiros diminuiriam em muito os custos, elevariam a rentabilidade e estariam dispostos a investir ainda mais na agropecuária.
Os contratos de produção com esses países poderiam contemplar, ainda, uma garantia de seguros de produção, um dos gargalos dos brasileiros no momento. Os contratos poderiam ser de longo prazo, de cinco a dez anos, o que garantiria abastecimento aos importadores e investimentos por aqui na produção. Quanto aos preços finais dos produtos, seriam ajustados conforme valores vigentes no mercado internacional de cada período.
Outra grande oportunidade para o Brasil neste momento é a agregação de valores. O Brasil deveria pensar em uma estratégia de longo prazo para elevar a industrialização, diminuindo as vendas externas de matérias-primas, com menor valor. Isso significa romper algumas barreiras impostas por muitos países importadores. E este é o melhor momento porque eles precisam de alimentos.
Mudanças tarifárias
Mas, para isso, o país precisa de mudanças tarifárias internas. A passagem de matérias-primas de um Estado para outro pode tornar a industrialização inviável devido à diferença de impostos interestaduais.
No caminho inverso, o adubo importado pode chegar a Mato Grosso sem pagar impostos, mas, se sair de misturadoras brasileiras, é tributado, elevando o custo.
BRASIL AGRÍCOLA INCOMODA O MUNDO
Fonte: Alberto Tamer
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008
Estão com medo do Brasil. Com a magnífica expansão da nossa agricultura, das fontes de energia, como o petróleo e o etanol, estamos incomodando o mundo, nos transformando em fortes competidores dos mais ricos e poderosos, e eles não estão gostando..pois que não gostem!
Graças a uma série de fatores favoráveis e alguma dose de bom senso em Brasília, estamos roubando espaço de outros países: Europa e Estados Unidos. Estamos passando a liderar na área de commodities agrícolas, minerais e energia.
Foi a agricultura, sim. E tudo isso se iniciou com o magnífico milagre da agricultura e da agroindústria brasileira, que hoje sustentam a economia. Exagero?
Pedro Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, prova à coluna de Alberto Tamer.
O Brasil é o primeiro exportador de café, açúcar, etanol, suco de laranja, tabaco, complexo de soja, carne bovina e carne de frango. O suco de laranja representa 82% do mercado mundial e o açúcar 41%. A fonte é o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Insuspeita.
O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar, café suco de laranja e o segundo de álcool, tabaco, complexo de soja, carnes bovinas e de frango e o terceiro de milho e carne suína.
Safra dobrou. “Nos últimos dez anos, a safra agrícola simplesmente dobrou para 140,7 milhões de toneladas de grãos, principalmente graças ao aumento da produtividade de 2,18 para 3 kg por hectare. O agronegócio representa 27,85 % do Produto Interno Bruto nacional. O saldo comercial do setor no ano passado foi de quase US$ 50 bilhões”, acrescenta Camargo Neto.
Sem ele, estaríamos imersos num déficit, delicadíssimo na atual crise financeira que exige grandes reservas cambiais e independência financeira do exterior.
Tem mais. Pedro Camargo Neto alinhava mais dados para mostrar nova imagem da agricultura brasileira no mundo: em 1997, o Brasil representava apenas 0,01% das exportações mundiais de milho, hoje somos 9,4%. Em carne suína a participação saltou de 2,82% para 14,17%.
O Brasil tem tudo, absolutamente tudo, para duplicar de novo, triplicar a produção agrícola, abastecer tranqüilamente o mercado interno – fato importantíssimo, no momento – e atender ao crescimento da demanda mundial. Na verdade, é um país único no mundo. A nossa evolução tecnológica está impressionando os outros, que buscam aqui lições da nossa experiência.
CRISE ESVAZIA DEBATE IDEOLÓGICO SOBRE MODELO IDEAL DO AGRONEGÓCIO
Fonte: João Domingos
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008
Pela segurança alimentar do País, num momento de crise mundial de aumento de preços e escassez na oferta de alimentos, e pela garantida de excedentes de grãos para a exportação, o governo decidiu abandonar o discursos ideológico sobre a pequena e grande propriedade, da agricultura familiar ou empresarial.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, de esquerda, defensor da agricultura familiar diz: “O discurso ideológico perde completamente o sentido quando o interesse geral de todos é a segurança alimentar. Temos é produzir alimentos para o consumo interno e aumentar a produção destinada à exportação”.
O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, de centro, que cuida dos interesses da agricultura empresarial e tem como responsabilidade o controle sanitário e o combate à febre aftosa e a outras doenças, medidas necessárias para a política de exportação do País, diz: “Não faço distinção entre pequena, média e grande propriedade. O agronegócio é de todos. Na batalha pela segurança alimentar, técnicos nossos e do Desenvolvimento Agrário trabalham em conjunto para melhorar as condições de produção. Isso é o que interessa”.
O governo tem dois ministérios para cuidar da questão agrícola – o do Desenvolvimento Agrário para os 4.200.000 agricultores familiares, e o da Agricultura para todo o restante.
OFERTA E DEMANDA DAS PRICIPAIS LAVOURAS BRASILEIRAS
NA SAFRA 2007/2008
................................Produção / Importação
..................................(Em mil toneladas)
Arroz em casca....11.955............900
Feijão...................3.437..............70
Milho..................56.233.............600
Soja em grão.......59.988............100
Farelo de soja......24.717.............10
Trigo....................3.824..........6.525
Algodão pluma......1.558.............60
Fonte: Conab
O trigo é crítico do ponto de vista do abastecimento nos próximos meses, segundo o analista da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Paulo Morceli.
O País é dependente do trigo importado, cerca de 70% do consumo é comprado no exterior, especialmente da Argentina. Mas, a Argentina não está vendendo o grão para o Brasil porque decidiu reter as exportações de trigo para controlar a inflação. A alternativa é comprar o produto dos EUA, Canadá e Ucrânia. Alem da maior despesa com frete há 10% de tarifa por serem paises fora do bloco Mercosul. A quebra de safras contribui também para o aumento de preços.
LULA VAI DAR MAIS CRÉDITO À PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
AVALIAÇÃO É DE QUE CONSUMO ESTÁ EM EXPANSÃO E AGRONEGÓCIO VAI CRESCER
Fonte: Tânia Monteiro
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008
O governo já tem uma estratégia de curto prazo para enfrentar a crise mundial dos alimentos: vai estabelecer incentivos, inclusive de crédito, para que os agricultores não escolham o que plantar só a reboque da “onda do preço bom”, e vai transformar Luiz Inácio Lula da Silva numa espécie de ideólogo do “Brasil, celeiro do mundo”. Lula discursará cada vez mais para convencer os grandes e pequenos agricultores de que vale a pena apostar na produção de alimentos para consumo interno e para exportar. Também vai reforçar a idéia de que seu governo não duvida que “agricultura e indústria têm de caminhar lado a lado”.
ALTA NO PREÇO DO ADUBO NINGUÉM VÊ, DIZ PRODUTOR
Fonte: José Maria Tomazela
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008
Com o rosto castigado pelo sol, o agricultor Nivaldo Bressiani não gosta de ser apontado como culpado pela alta nos preços dos alimentos. À frente de cerca de 30 trabalhadores rurais na colheita de milho, em Porto Feliz, região de Sorocaba, ele apontou outro vilão: o adubo.
Ele conta que, para semear o milho que está colhendo comprou adubo a R$ 1.620 a tonelada, tinha comprado a R$ 870, quase a metade do preço. Como o valor do insumo sempre esteve atrelado ao dólar, ele não entende porque tamanha alta se, no mesmo período, a moeda americana só desvalorizou. As sementes também subiram 30%, diz ele. Os preços dos fungicidas e outros defensivos ficaram praticamente estáveis, enquanto a mão-de-obra subiu entre 6 e 7%.
Bressiane está colhendo 1.800 toneladas. Pretende vender 70% e reservar o restante para alimentar o gado. O preço é de R$ 25 a saca de 60 quilos para o produtor, com lucro de quase 50%. Ele lembra que, na safra anterior vendeu a R$ 10,50 a saca e teve prejuízo. “Estou praticamente recuperando o que perdi”.
ARROZEIROS GAÚCHOS PEDEM ESTABILIDADE
Fonte: Elder Ogliari
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008
Responsáveis por cerca de 55% da produção nacional de arroz, os agricultores gaúchos se dividem entre os irritados, os preocupados e os conformados com a perspectiva de o governo federal suspender a exportação do grão para evitar a explosão do preço no mercado interno.
O presidente da Associação dos Arrozeiros de Bagé, Ricardo Zago, diz; “nos últimos três anos, por incapacidade, o governo deixou o produtor quebrar e agora vai errar de novo se trancar exportações em vez de estimular a produção”. O discurso de Zago pode ser explicado pelas agruras recentes. De 2004 a 2007, os arrozeiros gaúchos trabalharam no vermelho, gastando a média de R$ 26,50 para produzir sacas de 50 quilos, vendidas a R$ 21, em média.
Em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, o produtor Elíbio Orlando Bessow admite que precisa de uma safra bem cotada, com valores acima de R$ 30 a saca para respirar aliviado. Ele ainda tem de pagar dívidas contraídas há quatro anos, que o levaram a uma crise de hipertensão quando os preços afundaram, em 2005.
AGRICULTURA FAMILIAR
Fonte: Evandro Fadel
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008
O agricultor Eduardo Rugiski, de 61 anos, nasceu ali e nunca deixou a chácara de 9 hectares no município do Campo Magro, na região metropolitana de Curitiba. Casado com Bronislava, de 60 anos, teve cinco filhos e hoje embala duas netas. Da terra própria tirou e continua tirando boa parte da sobrevivência da família. “Foi tudo feito no cabo da enxada”, exulta Eduardo. Os filhos têm outros empregos, mas nenhum abandonou a lavoura.
Segundo a mãe, a terra é o elo que mantêm todos eles unidos, morando no mesmo local. Além dos 9 hectares, os filhos alugam áreas vizinhas para ampliar a produção. Atualmente, a maior parte está coberta pelo milho, utilizado para alimentar os animais e complementar a renda. Eles também plantam feijão, para consumo próprio e venda. E desistiram do arroz pela falta de tempo para se dedicar à cultura. Perto de casa, uma horta garante verduras e legumes para consumo, e ainda sobra para vender a um mercado.
A responsabilidade pela horta é do filho Teodoro, de 39 anos, que, agora, com o pai e a mãe, está terminando um curso sobre a qualidade do meio rural. Ele salienta que “A propriedade precisa ser uma empresa organizada”. Segundo ele, auxílio governamental para produzir nunca faltou, “Principalmente para a agricultura familiar”. No entanto, eles têm optado por evitar financiamentos.
Também para consumo próprio, o pomar fica recheado com laranja, tangerina, uva e caqui. Até vassoura é plantada na propriedade. Para complementar a renda Bronislava, conhecida como vovó Bruna, montou uma casa de café colonial. Os produtos são feitos por ela.
Eles quase foram à falência na grande geada de 1975. Toda a batata plantada se perdeu. Para pagar o financiamento bancário, desfizeram de muita coisa, entre elas o Aero Willys, ainda hoje lembrado com saudade. “Foi uma época difícil e chegamos a pensar em vender tudo”, diz vovó Bruna.
Trabalhando desde os 6 anos em lavouras, ela não consegue se ver em outra atividade que a obrigue a morar na cidade.
“Na roça, a vida é muito tranqüila, apesar de muito difícil”.
No pasto, um cavalo curte a aposentadoria depois de ter puxado muito arado. Hoje, um trator ajuda nas atividades.
Ao lado três bois pastam, “não compramos carne”, acentua vovó Bruna.
Dezenas de galinhas ciscam no quintal, enquanto porcos engordam para fornecer a banha usada no dia-a-dia. “Aqui toda a alimentação é pura”, arremata.
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